HOMILIA NA SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR
. TEMA LITÚRGICO: "Vimos a sua estrela"
Durante as semanas que precedem o Natal, a Igreja não se cansa de nos repetir quão vivo e legítimo é o seu desejo de que se realize aqui nesta terra o advento do reino de Deus.
Contudo, logo que o nosso divino Rei desce do ceu à terra, a Igreja mergulha embevecida na contemplação do mistério do Verbo incarnado - o mais maravilhoso dos mistérios, no dizer de São Tomás (Contra Gentes 4,27) - de tal modo que não deseja mais nada considerar na liturgia do Natal, que não seja o inefável comércio que se realiza na pessoa do Cristo e que vale às humildes criaturas o incomparável privilégio de participar na nobre condição do Filho único de Deus.
Ora, quando no início do século V o calendário romano se enriqueceu como uma segunda festa da incarnação, a festa oriental da Epifania, foi reservada mais espe-
cialmente a esta, a celebração do mistério de Cristo Jesus manifestando-se a nós como nosso Senhor e nosso Rei.
O majestoso Cântico de Entrada da Epifania propõe-nos em uma breve aclamação, o objecto próprio desta Solenidade, e introduz-nos no coração do mistério:
«tendo chegado o Senhor Soberano; nas Suas mãos está a realeza, o poder e o império».
A incomparável litúrgia da solenidade foi bem concebida para excitar nos nossos corações os mesmos sentimentos de fé e de amor que os Magos exprimiram em nosso nome quando depuseram ofertas preciosas aos pés do Rei Soberano. (Como disse Dom Guéranger: «A razão da preferência da Igreja romana pelo mistério da vocação dos Gentios vem do facto deste grande mistério ser soberanamente glorioso em Roma, que de chefe dos gentios que então era, se tornou chefe da Igreja cristã e da humanidade pela vocação celeste que neste dia chama todos os povos à luz admirável da fé, na pessoa dos Magos» - L1Année Liturgique, L'Epiphanie).
O mistério da Epifania apresenta-se-nos sob um duplo aspecto, conforme é encarado como um apelo de Deus ou como uma resposta ao apelo divino.
II
Como é fácil de constatar no ofício e na missa da Epifania, a Igreja detém-se com maior complacência sobre a segunda parte do mistério, pois que sobretudo se preocupa em fazer-nos reproduzir e continuar a adoração dos Magos. Para citar apenas um texto, eis a antífona do Magnificat (lªs vésperas), que traduz com tanta beleza e tanta finura a alegria comovida dos Magos vendo no céu o sinal do«grande Rei» e pondo-se em marcha com celeridade a fim de lhe levar os seus ricos presentes:
«0S Magos, vendo a estrêla, disseram uns aos outros: Este é o sinal do grande Rei. Vamos procurá-LO e oferecer-LHE presentes: ouro, incenso e mirra»
Em um dos seus mais belos poemas (Is., 60,1-6), Isaías mostra-nos os chefes dos Gentios caminhando à frente do grande movimento que atrai as nações à Cidade Santa onde vão desaguar como um rio impetuoso, a fim de se reunir ao redor do Messias que para sempre se tornou o Rei do universo.
«Todos virão de Sabã, carregados de ouro e de incenso e a cantar as glórias do Senhori»
Eis que, para nos introduzir no Evangelho, o versículo de aleluia nos leva a assistir á partida dos Magos levando consigo as oferendas simbólicas que têm por dever apresentar ao seu Senhor soberano" ,
«Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorar o Senhor»
A adoração dos Magos, porém, era apenas um começo. Chamava, exigia, como seu complemento indispensável, esse grande movimento de adoração ao qual foram agregados todos os povos da terra e que prosseguirá até que seja dado a todos contemplar a Majestade divina no puro brilho da sua glória celeste. S. Leão Magno soube entender,com maior nitidez e vigor do que qualquer outro, a significação profunda da adoração dos Magos.
Ouçamo-lo exprimir-se nessa nobre linguagem onde a própria Igreja encontrará o eco dos seus próprios pensamentos (2ª leitura do Ofício de Leitura do L.H.):
« Instruídos nestes mistérios da graça divina, caríssimos irmãos, celebremos com alegria espiritual o dia das nossas primícias e o princípio da vocação dos gentios à fé e à salvação, dando graças a Deus misericordioso, .......
Tudo isto se realizou, como sabemos, quando os três Magos, chamados de uma longínqua terra, foram conduzidos por uma estrêla para irem conhecer e adorar o Rei do céu e da terra........... Por N.S.J.C..........Amenl»
A liturqia tira muito discretamente, como convém, as consequências práticas da adoração dos Magos. O Salmo Responsorial ( Sl 71 ), como de resto é frequente, é adaptado ao relato do Evangelho com o fim de retirar rica significação.
O evangelista tinha-se contentado em relatar o facto histórico da adoração dos Magos e da sua oblação: «...... caindo de joelhos, prostraram-se diante d'Ele. Depois abriram os seus tesouros e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra.....»
O Salmo retém o gesto dos Magos, a fim de nos fazer descobrir a amplitude,·pois se reproduzirá no decurso dos séculos, alargando-se e transformando-se em uma vasta homenagem que todos os reis da terra e os povos cristãos tomarão como seu dever render vassalagem ã soberania do Emanuel. Não é mais o passado que o SI 71 põe sob os nossos olhos, mas sim o futuro:
"0S Reis de Társis e das Ilhas pagar-lhe-ão tributo;
Os Reis de Sabã e da Arábia virão com os seus dons;
Prostrar-se-ão diante d'Ele todos os Reis;
Todos os povos O hão-de servi»
"Prostrar-se-ão diante d'Ele todos os Reis; Todos os povos O hão-de servir" - Todo o desenvolvimento futuro do reino de Jesus Cristo não será mais que a extensão e o prolongamento através dos séculos do mistério da Epifania.
OS MAGOS
a) O exemplo dos Magos - Os Magos vêm do Oriente. Para eles, uma coisa é certa, essa estrêla não é um acontecimento explicável pelas leis da natureza, é um acontecimento miraculoso (V.9). Foi Deus quem lhes deu um sinal, o Deus dos povos, o Deus do mundo.
Mas que significa este sinal aos olhos desses sábios? Para eles o país dos Judeus é ridiculamente pequeno, sem qualquer importância no plano político. Porque não se limitaram a enviar emissários que fizessem um inquérito? Eles porém, como diz o Evangelho (I«Vimos; viemos»), tudo deixaram arrastados pela voz de Deus, que misteriosamente lhes falava.
b) Uma estrela no céu - Diz S. Leão Magno comentando este Evangelho: «Todos aqueles que na Igreja de Deus vivem pia e castamente, todos os que aspiram e sabem apreciar as coisas do alto, que não as coisas terrenas, são de certo modo comparáveis às estrelas do céu. E enquanto conservam o esplendor da sua santa vida, mostram aos demais, como a estrêla aos Magos, os caminhos do Senhor. Sede estrelas na terra disse o Santo, e brilhareis eternamente com eterna luz sideral no reino de Deus». Quando com simplicidade se erguem os olhos aos céus, a estrêla surge segura e convida-nos a segui-la, e só nos resta pormo-nos a caminho com a decisão com que empreenderam a sua jornada os três Reis Magos.
IV
SIMBOLISMO DOS DONS
a) Caridade - Escreveu S. Leão Magno: « Tendo a misericordiosa providência de Deus decidido vir nos últimos tempos em auxílio do mundo perdido, determinou salvar todos os povos em Cristol».E a Igreja na sua Iiturgia aconseha-nos (Oração para
Depois da Comunhão): «A Vossa luz, Senhor, nos acompanhe sempre e em toda a parte e pois nos fizestes participar deste mistério, possamos contemplá-lo com olhar puro e recebê-lo num coração cheio de amor. Por N.S.J.C. ...».
Possamos também dizer com o Apóstolo: "Meus irmãos ouvistes, por certo, falar do modo como a graça de Deus me foi confiada para vosso benefício.... .». Deus é Amor e aqueles que pela sua vocação cristã, vivem desse Amor, têm o dever de amar o próximo como a si mesmos, porque a caridade excede em dignidade as demais virtudes:
b) Mortificação - Diz-nos S. Leão Magno: «0 mesmo Nascimento do Senhor serviu ao Mistério da Paixão: O Filho de Deus não teve outro motivo para nascer a não ser o de ser cravado na Cruz. No seio da Virgem assumiu carne mortal; na carne mortal cumpriu-se o plano redentor da Paixão e foi assim que, graças ao plano inefável da misericórdia de Deus, o sacrifício da redenção se fez para nós destruição do pecado e começo da ressurreição para a vida eternal» (Sermo 48,E 1). Somos servos inúteis e, mesmo assim merecemos de Deus tão grande graça. Nós, como o Apóstolo, apenas nos devemos "Glorificar na Cruz de Cristo". Não procureis um Cristo sem cruz. Podereis encontrar uma cruz sem Cristo.
c) Oração - A glória de Maria consiste em ter sido escolhida para ser a mãe, a mãe humana verdadeira do Messias. O Evangelho diz-nos "Entraram na casa, viram o Menino com Maria sua Mãe, e caindo de joelhos, prostraram-se diante d'Ele». No Evangelho da Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, Lucas diz-nos que Maria, perante tantas maravilhas se interrogava: l«Maria fixava todas essas palavras e pensava nelas no Intimo do coração". Quanto mais agora perante tal sumptuosidade! Como se sentiria Aquela que, aquando da Visitação, entoara essa sublime acção de graças que é o Magnificat . Mas então ainda a sua fé se fundava apenas em alguns poucos sinais.
Agora porém, a Senhora já se encontra a caminho da sua Epifania nas Bodas de Canã. Então, a seu pedido, se inicia a vida pública do Senhor. Que Maria Santíssima receba também os propósitos da nossa vocação! Que Ela vele para que não nos desalentemos ante as dificuldades que se nos oferecem pelos caminhos da vida! Que Ela nos conduza aos pés de seu divino Filho! Que Ela nos ensine a adorar a Deus e a realizar a oferta representada naqueles dons: no ouro, a caridade; na mirra, a mortificação; no incenso, a oração!
v
VOCAÇÃO
a) Vocação- Como afirma o Cardeal Martini, "o perfeito chamado é so um, é Jesus Cristo, Aquele que foi chamado, desde sempre, com uma vocação eterna... Todo O homem é chamado a viver e a ser em Cristo... De Cristo provêm as várias mediações para os chamamentos mais particulares... A Igreja é riqueza multiforme de Cristo, participada em mil modos e em mil dons. Dons e modos que não estão espalhados e esquecidos, mas organicamente ligados, segundo hierarquias e estruturas sugeridas pela longa História da Igreja". Assim toda a vocação é sempre função desse grande mistério que é o Corpo Místico, o Cristo total, Cristo e a sua Esposa a Igreja.
A essa realidade misteriosa se refere o Apóstolo na Epístolo aos Efésios, hoje proclamada. Paulo mais adiante acrescenta, completando a mensagem: «A mim, o mais pequenino de todos os santos, é que foi dada esta graça de anunciar aos Gentios a insondável riqueza de Cristo e de elucidar a todos sobre qual seja a economia do Mistério escondido desde tempos antigos em Deus, que tudo criou, a fim de agora ser dada a conhecer aos Principados e às Dominações lá dos céus, através da Igreja, a multiforme sabedoria de Deus, consoante o eterno desígnio que realizou em Cristo Jesus, Senhor nosso, por quem temos a afoiteza de nos aproximarmos confiadamente, mediante a fé na Sua Pessoa.
Por isso vos peço que não desanimeis com as tribulações que suporto por vos;
é esta a vossa glória (Ef. I I I, 8-13-tradução do Cónego José Falcão).
b) A vocação dos Magos - a vocação é a execuçao no tempo de um decreto eterno.
Não se pode separar o conceito de vocaçao do conceito de predestinação. S.Paulo o afirma no Capo VII aos Romanos: "Aos que predestinou, a estes também chamou" Rom. 8,30), e ainda mais em Rom. 8,30 ( «E a estes que predestinou, também os chamou e a quem chamou também os justificou, também os glorificou»).
Porém, Cristo é cabeça e exemplar de todos os predestinados. Por isso a nossa vocaçao é propriamente a filiação divina, que em nós é adoptiva assim como em Cristo foi natural. «Herdeiros de Deus, co-herdeiros de Cristo» (Rom. 8,17) e "Juntamente padecemos, para ser juntamente glorificados" (Rom. 8,17).E porque além de chamados na generalidade, também somos chamados individualmente, adverte o Apóstolo: "Eu vos rogo, irmãos que caminheis de um modo digno da vocação a que fostes chamados" (Ef. 4,1).
Os Reis Magos foram fidelíssimos à vocação do Senhor como já atrás referimos.
c) A vocação em Cristo
A nossa vocação em Cristo é como uma segunda criação. Esta nossa associação ao Mistério de Cristo, que nos faz nascer de novo, é a doutrina sublime dos primeiros capítulos da Epístola aos Efésios
VI
E a especial revelação que Deus concedeu a S. Paulo, «0 Mistério secreto que nÃo conheceram os séculos«, é que os gentios são co-herdeiros, pertencem ao mesmo Corpo e comparticipam na Promessa feita em Cristo Jesus por meio do Evangelho" (Ef. 3,6); 0 versÍculo chave desta doutrina encontra-se em Efésios2, 10, cujás ideias capitais são: «Pois nós somos obra sua, criados em Cristo Jesus em vista das boas acções que Deus de antemão preparou, para nós as praticarmos» (Trad.C.
J. Falcão).
Assim fica expressa claramente a nossa vocaçao em Cristo, conhecida por Deus desde a eternidade, que se realiza em Cristo por obras reaIizadas pela graça de Cristo que Deus nos tem preparadas se cumprirmos os seus desígnios.
d) Conhece a tua vocaçao - «Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio» (Jo.20, 21). Porém o Senhor não nos deixou orfãos, antes nos mandou o Consolador, o Espírito Paráclito. « Recebei o Espírito Santo», foi o que disse aos Apóstolos no domingo da Ressurreição. Assim apresenta explicitamente as três pessoas da Santíssima Trindade. A Vocação procede do seio da Santíssima Trindade. O primeiro enviado é Jesus Cristo. A este seguem-se os Apóstolos e com estes todo o Povo de Deus.
O cristão deve propor-se como primeiro problema o conhecimento da vocação eterna no seio da Trindade. Que desígnios tem Deus Nosso Senhor sobre mim? Uma vez conhecida a vocação, há que realizá-Ia.
É o que explica o Apóstolo na sua carta aos Gálatas: «Mas, quando aprouve "Àquele que me reservou a partir do seio materno e me chamou pela Sua graça revelar em mim a Seu Filho, para O anunciar entre os Gentios, decididamente não consultei a carne e o sangue, nem subi a Jerusalém para ir ter com os que foram Apóstolos antes de mim, mas retirei-me para a Arábia e depois voltei novamente a Damasco» (Gálatas I, 15-17, Trad. C. J. Falcão). É o exemplo de Maria Santíssima: «Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra» (Lc 1,38). «E o Verbo de Deus fez-se carne» (Jo. 1,14).
A preseverança na vocação é um dom de Deus que há que pedir dia após dia.
Viver muito vigilantes contra os três principais inimigos da vocação que sao a sensualidade, o mundo e o espírito.
Devemos guardar o preceito do Apóstolo «Recomendo-vos, pois, eu mesmo, prisioneirc no Senhor, que andeis de maneira digna do chamamento que recebestes: com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos mutuamente com caridade, pres- surosos de manter a unidade do espírito pelo vínculo da paz» (Ef. 4,1-3,Tra.C.J.Falcão) .
e) Modo de conhecer a vocaçao - Imitemos os Reis Magos. Se demandamos a vontade de Deus, não será raro aparecer a estrêla no nosso firmamento espiritual, qualquer que seja a sua forma. Se procuramos a Deus sinceramente, saberemos interpretar essa estrêla. Mas a prudência aconselha a acudir também aos sábios suscitados por Deus e que encontramos no caminho. Aos doutos, aos homens de espírito, aos nossos directores espirituais, para que eles nos confirmem em nossa santa vocação.
A. C. F.