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sexta-feira, 31 de julho de 2009

NOTA BIOGRÁFICA DE JUAN DONOSO CORTÉS


NOTA BIOGRÁFICA DE JUAN DONOSO CORTÉS

Juan Donoso Cortés nasceu em Valle de la Serena, Badajoz, em 6 de Junho de 1809. Fez os seus primeiros estudos, até à idade de dez anos, com um preceptor particular, em Don Benito, residência tradicional da sua família. Prossegue depois os estudos em Sala­manca (1820),- onde se distinguiu no estudo da Lógica e da Metafí­sica - , Cáceres (1821) e Sevilha (1823-1828), em cuja universidade cursou e se formou em Leis. Testemunhando a extraordinária preco­cidade da sua inteligência, ficaram-nos dos seus treze anos uns apontamentos sobre história universal, notáveis pela claridade, método e discernimento filosófico. Como fosse ainda muito novo para exercer a advocacia, aceitou o oferta de uma cátedra de Hu­manidades, na uiversidade de Cáceres, que leccionou durante um ano. Em 1830, passa a Madrid, onde frequenta os círculos literá­rios; ele próprio escreve versos inspirados que o vão tornando conhecido. Em 1832, publica a sua "Memoria Sobre la Situación Actual de la Monarquia", dirigida ao rei Fernando VII, primeiro escrito político de inportância, que lhe vale, além de grande po­pularidade, ser nomeado oficial da secretaria do Uinistério da Graça e Justiça. Donoso Cortes é nesta época, e sê-lo-á durante cerca de
uma dezena e meia de anos, um liberal moderado, de arreigadas con­vicções aristocráticas (aliás, por assim dizer, instintivas em quem, como ele, descendia do famoso conquistador do México, Fernando Cor­tés), que baseava numa "aristocracia da inteligência", prerrogativa daquelas personalidades de excepção que, congraçando, dirigindo ou influenciando de qualquer maneira os povos, fazem a história e nesta imprimem a sua marca indelével e inconfundível. Depois da morte de Fernando VII, quando da questão sucessória que levará à guerra civil os espanhóis, tomará o partido de sua filha D.Isabel II ( de quem foi preceptor e a quem, como secretário l acompanhou durante o exílio ) contra o partido carlista que apoiava o irmão do rei, o infante D.Carlos Maria Isidro, absolutista. Em 1835, pouco depois da sua única filha, faleceu sua mullher,com quem havia casado seis anos antes e a cuja memória permaneceu fiel até ao fim da vida. Eleito deputado às Cortes, em 1838, ocupa mais tarde a secretaria do Conselho de Mi­nistros, no governo de Mendizábal, mas demite-se pouco depois por discordar da política seguida por este. Em l844,participa da comissão de Reforma Constitucional que viria a a elaborar a Constituição de 1845, onde viu consignado o seu princípio de que «as cortes» , como Rei, são a fonte das coisas legítimas"; defende, com efeito, a Monarquia constituciona1 e parlamentar, que tem nesta a1tura como
o sistema mais capaz de assegurar e fazer prevalecer os interesses gerais da sociedade. Já, porém, nesta legislatura terá oportunidade de fazer pública profissão de que a «autoridade pública», considera­da em geral ou em abstracto, vem de Deus" e de que o "Estado deve ser tão religioso como o homem". É a partir de 1847, que toda uma série de acontecimentos, a começar, nesse ano, com o falecimento de seu irmão Pedro, irá abrir nele a via que culminará naquilo a que ele próprio chamou a sua "conversão". A operação subtil e si­nuosa da graça divina irá, em Donoso Cortés, ser propiciada por dois sentimentos característicos, agindo um sobre o outro simul­taneamente: por um lado, um gradual e crescente pessimismo acerca dos homens, alienados ao exclusivo arbítrio das suas vontades e paixões desencontradas, e acerca da viabilidade de organização "ra­cional" desse seu pequeno e turbulento mundo a que se confinam; por outro lado, uma consequente abertura e descoberta do mundo sobrenatural e da acção da Providência divina. Tudo isto conduzirá à des­tronização daquela "soberania da inteligência" que apontámos, a favor do primado da afirmação sobrenatural da fé; como confessa
Juan Donoso, em carta a Blanche-Raffin: "Eu sempre fui crente no íntimo da minha alma, mas a minha fé era estéril porque não gover­nava os meus pensamentos, nem inspirava os meus discursos, nem guia­va as minhas acções". As suas convicções políticas vão, paralelamente, evoluindo num sentido marcadamente conservador que, no entanto, nunca chegará a ser absolutista (com efeito, jamais defenderá, como os seus adversários carlistas, inspirados em Joseph de Maistre, o "direito divino"dos reis). Esta sua evolução fica publicamente assumida e ex­pressa, em Janeiro do ano de 1849, numa sua célebre intervenção par­lamentar, em que proferiu aquele que ficaria a ser conhecido como o "Discurso sobre a Ditadura". Neste, defendia a política do governo presidido por Narváez, cujas medidas tornaram possível acabar com as repercussões mais agressivas da revolução de 1848, em Espanha, abjurando por completo as suas antigas ideias li­berais, Que qualifica de erróneas, pertubadoras e dissolventes, vai propugnar pela necessidade, limitada e conjuntural, do governo dita­torial, sempre que não haja outra alternativa, para a "ditadura da insurreição"; ao mesmo tempo, defende a supremacia da Igreja em ma
téria política, aliás em coerência com aquelas ideias suas que notáramos já quatro anos antes. Donoso Cortés vai estar depois cerca de um ano como embaixador do seu país em Berlim mas, ainda em 1850 regressa de novo ao parlamento onde, a propósito de um debate sobre po­lítica financeira, terá ensejo de expender algumas ideias sobre polí­tica geral europeia num famoso discurso que, vertido em italiano e alemão, foi lido e elogiado por personalidades como Schelling, Ranke e Metternich. Impressiona este discurso por um sentido prospectivo de tal modo apurado que chega a tocar a raia da visão profética; nele prevê, com efeito, a ameaça do imperialismo russo, a confederação dos povos eslavos, o afundamento do Império Britânico, a revolução sovié­tica. Já pelas prevenções que faz, já pela única solução fundamental possível de conjurar essas ameaças, que aponta, esse discurso conser­va ainda hoje toda a actualidade e merecia, sem dúvida, ser dado à meditação do actuais estadistas . Vale a pena dizer, ainda no contexto deste discurso, que, como resultante lógica da sua inte­gridade cristã, Donoso Cortês não simpatiza nem confia, no domínio económico, tanto com a plutocracia capitalista dos "espoliadores", como com o socialismo subversivo dos "espoliados", para utilizar os seus termos. A este respeito ( escreve numa carta de Novembro de 1851 à rainha D. Maria Cristina, em termos de uma franqueza que já foi con­siderada "brutal" ) deixa muito claramente afirmado que os ricos traí­ram o seu dever cristão de caridade para com os pobres e adverte a inevitabilidade de uma revolução social, no caso de os monarcas da Europa não enveredarem por uma política global e concertada de socorro aos pobres e de contenção de privilégios dos ricos: - «Hoje o único problema é o de distribuir adequadamente a riqueza que tem sido mal repartida ( … )  Se os governantes das nações não o fizerem, o socialis­mo virá resolver o problema». A solução que propôs como alternativa 

o dever esmoler dos que têm demais para com os que carecem do 

sufici­ente - , se parecerá ingénua à mentalidade de hoje, que já assistiu e assiste - possessa de "segurança social" - à crítica demolidora e às reivindicações do movimento socialista, nem por 

isso deixa de se inte­grar numa tradição cristã já claramente desenvolvida nos tempos de um 

S.João Crisóstomo ou de um Santo Ambrósio. E, como advertência de­cisiva, pode ler-se em conclusão nesta mesma carta: «Hoje em dia, só os santos podem salvar as nações»! Numa outra correspondência, de Agosto deste mesmo ano) dirigida de Paris - para onde tinha ido já em 1850 

e onde ficaria até à morte, como embaixador de Espanha - a seu amigo Gabino Tejado, Donoso Cortés deixa-nos uma outra indicação precios

da qualidade e da empenhada intensidade por que 

se ia orientando a sua vida: «As coisas da religião, ocupam-me já exclusivamente. Não posso, 

nem devo deixar este posto, por graves considerações de inte­resse público, mas desejo que me livrem dele; no dia, em que isso su­ceder, não me voltareis a ver no mundo». Será nesse mesmo 

ano 

de 1851 que aparecerá publicada aquela que é sem dúvida a sua mais importan­te obra – o «Ensayo sobre el Catolicismo, el Liberalismo y el Socia­lismo, Considerados en sus Principios Fundamentales" que viria a ter uma imediata e vasta repercussão, principalmente fora das 

fronteiras espanholas. Em 1852, escreve a «Carta al Cardenal Fornari» que, no dizer de um detido estudioso de Cortés, Santiago Galindo Herrero, «foi tomada por muitos como um claro antecedente do «Syllabus» ou, mais exactamente, da encíclica «Quanta Cura» que o papa Pio IX publicaria em 1864, acrescentada de um Catálogo ( o «Syllabus» ) de oiten­ta proposições, já condenadas em anteriores documentos pontifícios, que sintetizavam os vários tipos de mentalidade e cultura que iam impregnando o século: panteísmo, naturalismo, racionalismo, socialis­mo, galicanismo, etc … 

No entender do mesmo estudioso, «nesta carta encerra-se, compendiado, todo o pensamento do autor estremenho». Ela pode considerar-se, com efeito, como o testamento político e moral 

daquele que é considerado como um dos mais brilhantes prosadores do seu século e que, com apenas quase 44 anos, viria a morrer a 3 de Março de 1853.

P. I. // A.C.F.
Lisboa , Março de 1982




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