






O Círculo Hermético Hermann Hesse a C. G. Jung
Dia 22 de janeiro de 1961, em Montagnola, na parte italiana da Suíça. Almoço em casa de Hermann Hesse. Do lado de fora, neva; o céu, porém, está claro. Olho através da janela; em seguida para meu prato de curry. Ao levantar a vista encontro, na outra extremidade da mesa, os olhos também claros e transparentes de Hesse. — — Que felicidade, digo, encontrar-me hoje almoçando aqui, Nada sucede casualmente, responde Hesse. Aqui só se encontram os CONVIDADOS CERTOS: este é o O CIRCULO HERMÉTICO. MEU PRIMEIRO contacto com a obra de Hermann Hesse teve lugar em 1945, ou talvez um pouco antes. Não me lembro quem me emprestou Demian. Naquela época Hesse era quase um desconhecido no Chile. Era discutido em pequenos círculos, quase em segredo. Aliás, fora da Alemanha sua fama era limitada. Foi em 1946 que o grande público tomou conhecimento de sua existência, ao lhe ser conferido o Prémio Nobel de Literatura. A partir de então, passou a fazer parte, quasi forçadamente diria eu, dos autores traduzidos em outras línguas. Apesar disso, há países em que Hesse continua sendo um autor que não desperta grande entusiasmo. Para o público anglo-saxão, Hermann Hesse é um escritor rebuscado e suas traduções não constituem um êxito editorial. Com efeito, suas obras completas não foram traduzidas para o inglês. Em Londres, fui obrigado a procurar durante dias alguns dos seus livros mais conhecidos para presentear um amigo meu, que nunca ouvira falar do escritor alemão. Que diferença com o público de língua espanhola, que leu e releu a obra de Hesse ( OBRA COMPLETA , AGUILAR – 2 vols.,em papel Bíblia ) , considerando seu autor um Mestre que ensinava normas de vida a uma juventude ávida de novos horizontes espirituais. “É estranha essa diferença entre o público saxão e o espanhol diante da obra de Hesse, Muito especialmente, foi o leitor latino-americano quem acolheu com maior entusiasmo o autor alemão; e na América Latina, destacam-se o Chile, a Argentina e o México”. Não sei se no resto do mundo o escritor chegou a ter iguais admiradores. Na Índia, por exemplo, seu livro Sidarta, embora traduzido em bengali, hindi e e outras línguas locais, não são conhecidos, circulando apenas entre minorias entusiastas. Em quase dez anos de permanência na Índia, dei muitos exemplares de presente, enviando o último ao monge Krishna Prem, um inglês doutorado em Cambridge, filósofo bakhti, devoto de Krishna, autor do interessantíssimo livro "O Yoga de Kathaupanishad" e que vive há mais de trinta anos nas vizinhanças da religiosa cidade de Almora, nas iniciais elevações do Himalaia. Que diferença entre os latino-americanos! Um pintor mexicano fez-me presente de um slide colorido de um quadro seu, no qual ilustrava o Magister Musicae e José Servo, de O Jogo das Contas de Vidro. O velho professor está sentado ao piano enquanto o jovem Servo o acompanha ao violino na primeira sonata que tocaram juntos. O pintor enviara e quadro a Hesse como presente e Hesse recomendara-lhe que me procurasse em Deli. Tive que me esforçar para o pintor não se mudar para a Índia. A paixão que Hesse despertou nas almas espanholas só pode ser comparada com a que certamente desperta, ou despertou, entre os alemães de uma geração inteira. Na atitude do pintor mexicano sentia-me retratado, porque assim também aconteceu comigo e continua ocorrendo. Ainda hoje, daria a volta ao mundo para encontrar um livro, quando creio que ele seja fundamental ou é o alimento que minha alma necessita. Venero seu autor com um amor de ordem superior. Estranho a juventude tíbia de nossos dias que espera só o prazer das obras, que não as busca em parte alguma, que não as venera. Poderia passar fome, roubar, a fim de obter o necessário para a aquisição de um livro. Nunca os quis emprestados, porque os desejava só para mim, apenas e só meus, para uma convivência íntima com durante horas e dias seguidos. Como acontece com os homens, assim sucede também com os livros: possuem um destino próprio, são como que dirigidos às pessoas que os esperam, encontrando-as na hora exacta. Os livros vivem, morrem e reencarnam; são construídos de substância irradiante, que procura e abre caminho através das trevas, frequentemente após a morte de seus autores. Hesse dizia que Sidarta penetrara na Índia vinte anos depois de sua publicação e mesmo assim — facto que ele desconhecia — somente de forma limitada. No início, Hesse presenteava seu livro aos amigos para que o lessem, sem receber muitas vezes um bilhete de agradecimento. A obra destinada a agir profundamente necessita de anos de solidão. Assim, conforme indiquei, a primeira obra de Hesse chegou às minhas mãos por volta de 1945. Foi Demian, esse livro mágico. Por que motivo produziu em mim uma impressão tão singular? Ondas de enrgia transmitiram-se a mim de suas páginas. Fazia já muitos anos que a obra fora escrita. Talvez não houvesse nascido quando foi imaginada. Muitas pessoas já se tinham nutrido de sua influência; inúmeras edições haviam surgido. Veio a mim numa tradução, quiçá cheia de erros; no entanto, conservava a energia, a força, o milagre. As palavras, o sonho, o sopro e o tormento no pensamento do indivíduo que a concebeu como que se potenciavam ao contacto de uma nova mente que a recebia e para quem se destinava. Não é isso um milagre?
Quando seu autor, ainda jovem, inclinado sobre a escrivaninha, talvez em Baden, perto de Zurique, na pensão "Verenahof", dava vida à sua obra, nela se concentravam forças existentes já em potência, mas que seriam irreais para os que estivessem centrados numa outra esfera do espírito. Essas forças reviveriam, ressurgiriam poderosas ao contacto de uma mente e um coração que haviam perseguido idêntico peregrinar. Demian, o herói, se converteria no modelo de muitas vidas; era preciso rivalizar com sua força e serenidade, com tudo aquilo que possuía de arquétipo. Por isso eu caminhava pelas ruas da minha cidade sentindo-me um homem novo, portador de uma mensagem e de uma senha. E é também por isso que Hesse foi mais do que um literato ou um poeta para várias gerações. Sua mensagem atinge regiões que estavam reservadas à religião. Se bem que somente em alguns de seus livros ocorra esse fenómeno, refiro-me aos que pertencem ao género mágico, e não aos evocativos. Os últimos, destinam-se principalmente ao público alemão, dotados que são de um cunho local. Para mim, a obra de Hesse limita-se a Demian, Viagem ao Oriente, sua fantástica Autobiografia, Sidarta, O Jogo das Contas de Vidro, O Lobo da Estepe e Narciso e Goldmund. Logo depois coloco As Metamorfoses de Piktor, que serão comentadas adiante. Demian não é realmente uma criatura física, não está separado de Sinclair, o narrador da história. Demian, na verdade, é o próprio Sinclair, seu «EU» profundo, o herói PARADIGMÁTICO existente no fundo de todos nós. O Ser, em suma, que se encontra imanente e inalterado na alma, e sob cuja proximidade todos deveríamos procurar viver. Há nesta obra uma mensagem de pedagogia mágica; refiro-me à tentativa de conduzir um adolescente ao contacto redentor com um ser perene que vive nele de onde manarão as forças que o conduzirão a superar os perigos, cavalgando sobre as ondas do caos primitivo, sobretudo na adolescência. Todos nós, em maior ou menor grau, encontramos durante nossas vidas personagens como Demian, perdidos numa infância remota: meninos seguros de si, serenos, heróis venerados pelos outros. Mas Demian, na realidade vive imanente no nosso íntimo. No final das páginas insinuantes do romance, Demian aproxima-se de Sinclair, que se encontra no leito de um hospital militar, beija-o na boca ensanguentada e diz: "Escute, meu menino, se acaso outra vez necessitar de mim, não voltarei mais dessa forma prosaica, a cavalo ou por via férrea. Terá de me encontrar dentro de si-mesmo.” Hesse escrevia isso nos seus dias mais angustiados, quando pensava em abandonar para sempre sua pátria e a guerra. Encontrara Demian, encontrara-se a si mesmo. Esta mensagem, porém não está explicitada no livro. Encontra-se envolta em uma auréola mágica, é um símbolo. Por conseguinte, só pode ser compreendida pelo coração, pela intuição. E irrompe, por assim dizer, na alma do leitor, para quem o livro chegou silenciosamente, "como um ladrão dentro da noite", abrindo caminho através das espessas sombras do esquecimento e da penitência. É por isso que há muitos anos atrás eu caminhava pelas ruas da minha cidade com o peito inchado, sentindo que algo novo acontecera na minha vida: uma mensagem de eternidade. Abraxas LUZ E TREVAS é a vida. Contudo, esforçamo-nos em realizar “apenas um desses extremos”. Nossa alma anseia pela luz, com muita força, pelos altos cumes, por Deus. Visões sublimes, esperanças exaltadas… Desde criança, primeiro uma pedagogia familiar, em seguida escolar, humanística, nos marcaram a fogo os valores correspondentes a uma única face da moeda. A civilização cristã ocidental pretende superar o lado sombrio da esfera, sem encontrar uma simbologia apropriada, posta à disposição do indivíduo que começa a viver, de sorte que possa aceitar e interpretar igualmente as sombras que a luz projecta. E quando caímos destas alturas, estatelados sobre a terra e sendo felizes ali durante um instante, nossa mente carece de nexos e sinais que nos possam orientar. É assim que surge a dualidade. O mesmo não sucede no Oriente, na Índia, onde uma antiquíssima civilização da natureza aceita seus deuses polifacetados, conseguindo o homem uma expressão simultânea, sem transições, entre a luz e as trevas, o bem e o mal, de sorte que o Demónio foi desarmado, por assim dizer, da mesma forma que Deus. Mas o preço de tão alta empresa é pago duramente à Mãe Natureza. O homem hindu é menos individualizado do que o ocidental, é um pouco mais alma colectiva, mais natureza. Pois bem, como poderia o homem cristão ocidental chegar a um ponto onde, sem deixar de ser pessoa individuada, atingisse um estado em que a luz e as trevas, Deus e o Demónio, coexistissem? Terá que descobrir um deus cristão antes do Cristo, e que possa continuar sendo depois d'Ele. Isto é, o Cristo da Atlântida, que existiu certa vez e que pode surgir de novo das águas profundas, como do centro de um continente recuperado. deus é Abraxas, deus e demónio simultaneamente.
MIGUEL SERRANO